quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Diálogos ferrugentos

Silêncio
Senta-te
Cala-te
Ouve
Come.

Nessa cadeira de ferro
Hás-de de permanecer
Até eu me calar.
Até eu te fazer sofrer.

Calma
Continua sentado
Fala
Não oiças
Vomita.

Nessa mesa de madeira velha
Hás-de engolir toda essa angústia
Ainda ensanguentada pela minha raiva
Até que me sinta saciado.

Serve-te dessa fúria
Grita
Chora
Pensa

Nesta sala, vive-se a teatralidade
Nesta sala sente-se o cheiro a cinza molhada
Nesta sala has-de morrer afogado no leito de uma conversa
De forma inquestionável.

Corre, foge, morreste.




domingo, 24 de outubro de 2010

Saudade

Se eu dissesse
Se eu dissesse o quanto
O quanto ainda me dói
Iria doer ainda mais.

Está tudo vazio
Partiram sem avisar
Ficou tudo em congelo permanente.

E agora?
Nada vai voltar a ser o que era
Nunca mais vou sentir aquele aconchego
Nem aquela protecção imaginária.

Aquelas vozes
Aquele calor
Aquelas marés onde eu sabia navegar.

Acabou.


Mártir das minhas palavras

Nasceste há uns dias
És uma das minhas obras
Vives onde eu desejo
És aquilo que eu quiser

Nasceste para sofrer
Nasceste para viver no mundo que criei para ti

Maioritariamente caminhas em silêncio de mão dada com a solidão
Quando não estás sozinho, há sombras que te perseguem
Admiras as luzes da cidade em meio tom
Sentes o pó no ar a cada movimento

Sei que te sentes só e aterrorizado a cada palavra
Sei que às vezes queres sair do ninho que te criei
Mas não vais sair

Hás-de morrer aqui
Hás-de comer o teu próprio corpo
Tens de sofrer
Tens de te alimentar de todas as más emoções
Tens de beber todos os medos

Tenho um molho de angústia para te oferecer
A cada dia que passa
Porque afinal, foste criado para ser o mártir das minhas palavras.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Janela

Olhas para a janela
Todas as manhãs
E vês sempre o mesmo
O vidro embaciado
A água da chuva ainda a escorrer pelo vidro
Lentamente...
As vezes tentas acreditar que um dia a janela vai-te mostrar outra realidade.

Aquela janela consome-te a mente
Todas as manhãs

Às vezes consegues ver vultos através dela
Mas nunca sabes quem são
E vives assim, fechado a olhar para a janela

Um dia senti que a querias partir
Mas és fraco de mais para conseguir tal proeza
Mas consegui sentir a tua apavorada curiosidade
Mas a tua fraqueza, falou bem mais alto
Bateu com o pé no chão, e matou-te.

Agoras que estas morto
De cabeça erguida para a janela
Sentes que ainda a queres destruir?
Ainda tens curiosidade de saber o que existe para além daquele vidro sujo?

A janela continua embaciada, a água da chuva continua a fazer o mesmo trajecto e o vidro continua sujo.
E tu, morto.

Agora que caíste sem amparo nesse chão frio de mármore
Sei que foste o pioneiro
O pioneiro das quedas.




quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Descalço

Caminhas sobre estradas de lâminas
Nunca sabes para onde queres ir
Nem se queres ir
Mas caminhas, onde a calçada te dá prazer
Corres em círculos, sem noção da cruz que carregas
O pavor, é o que calças todas as manhãs
E corres
Em círculos
Às vezes cais
Às vezes levantas-te
Outras vezes rastejas, em círculos
Ao som da tua dor
Despido de prazer
Ouvindo apenas o crepitar do pensamento
Sentindo que o ar que respiras, é agora o sangue que te escorre nos joelhos...
És constantemente violado pela incerteza
Mas continuas a correr em círculos
Descalço e sem pudor
Sem certeza se estás vivo
Ou se estás apenas fechado num sono profundo
Onde permaneces intocável
Mas não invisível, para todos.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Tardes de Outono

Estava sentado a admirar
Um vulto ao longe
Estava vento
O solo estava vestido por folhas secas de plátano
Os ciprestes dançavam ao ritmo do vento
E eu, ali, sentado, a admirar o belo.

O vento a descarregar a fúria
O sol a lutar contra as nuvens negras
As árvores despidas de morte
Os lábios secos
O corpo frio como o mármore
E os ciprestes...

Os ciprestes estavam firmes e com vitalidade
Eram a vida no cenário decadente
Eram quem mais gritava
Eram quem tinha mais sangue nas veias.

Talvez tal vitalidade
Fosse fruto de seres que outrora ja a tiveram
Talvez fosse roubada
Aos inanimados que as rodeiam
Aqueles pra quem elas dançam
Nas ventosas tardes de Outono
Ou talvez...
Há sempre um talvez nestas minhas tardes de Outono.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Medo

Tenho frio

Esta casa está gelada

Cheira a sangue

Há pó em todo o lado

Cheira a terra

Cheira a terra molhada

Há alguém nesta casa

Consigo sentir o cheiro

Consigo ouvir o som de uma respiração ofegante

Tenho medo

Sinto medo

Respiro medo

Estou a ouvir o som de passos lentos sobre o chão rijo de madeira velha

Tenho medo

Sinto medo

Inspiro medo

Um medo que me cega, perante cada som desta casa…

Sinto que está alguém a aproximar-se

Cheira a sangue

Tenho cada vez mais frio

Oiço passos

Oiço a tal respiração

Oiço um som semelhante ao arrasto

Sinto medo

Cheira a medo

Cheira ainda mais a terra molhada

Expiro medo

Consigo até ver o medo

Está a apoderar-se

Está cada vez mais próximo

Eu sinto

Ele vem aí

Personificado, e vai matar-me

Eu sei

Eu sinto-o nas veias

O frio aumenta

A casa vai desabar, eu sinto um bafejar frio no meu pescoço

Estou nervoso

Estou a tremer

Sinto o sangue a percorrer cada parte do meu corpo

Fortemente

Como se não houvesse amanhã

E não havia

Pois esse medo que senti, era apenas a encenação da minha morte.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aquelas Ruas

Entraste nessas ruas sem pedir

E eu admirei esses passos

Foram belos e cautelosos

Esses passos foram sentidos como remendos

Mas que passos…

E se eu pedir para deixares essas ruas sem ninguém?

Ruas vazias só para mim

Para poder caminhar sem medo

Para poder dizer e fazer o que nunca foi feito

Para poder apenas respirar o que nunca foi respirado

Para poder soltar o meu ego e encontrar-me

Tenho a certeza que devo andar numa dessas ruas

Com aparência de vagabundo, nessas ruas

Que ninguém quer visitar

Onde ninguém quer morar

Onde ninguém quer morrer

Onde ninguém quer ser visto

E onde eu me perdi, sem saber

E se eu pedir para deixares essas ruas sem ninguém?

Apenas para poder correr descalço nas afiadas pedras da calçada

E sentir a dor… sentir que estou aqui e não perdido naquelas ruas

Para poder sentir que estou vivo e pronto a abandonar tais sítios

Com um ar de cobardia escondido algures entre a consciência e permanência

Com aquele ar que ninguém quer mostrar

Com aquele ar que existe, quando se visita tais ruas

Quando inconscientemente decides morar lá

Naquelas ruas… velhas, escuras, sujas e com gente

Gente que não conheces e nem queres conhecer

E se eu pedir para deixares essas ruas sem ninguém?

Para poder gritar e soltar toda a loucura que foi presa

Para poder ser eu sem que ninguém possa observar

Para poder ver aquelas ruas à minha maneira

Apenas para poder pintar anjos que nunca choram e céus que nunca caiem

Mas quem foi que roubou as paredes das minhas ruas?

Outrora, ruas de dignas de me sentir

Outrora, ruas, que apesar de ruas, eram as minhas ruas.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

As Cores

Sinto aquele cinzento a pairar no ar

Sinto que vai chover

Chuva que engole tudo ao cair

Sinto aquele vermelho que arrepia

Sinto que algo vai morrer

Morte que morde a consciência

Sinto aquele preto que me acompanha

Aquele negro que tanto atormenta

Queria tanto sentir o branco que limpa

Queria sentir o verde que acolhe

Queria sentir tantas outras cores

Que honestamente foram roubadas por alguém

Queria… mas já não sei se quero sentir

Já não sei se quero sentir as cores da mesma forma que sentia

Já não sei se quero ir mais além, das cores

Mas sinto que vem aí o cinzento

Aquele cinzento

O cinzento que me põe em estado fúnebre

O cinzento que me consome dia após dia

Numa tentativa simpática de esconder que o negro comeu o branco

Lentamente, sem ninguém perceber

O branco e o negro, mortos pela mistura

Mortos sem ninguém perceber

Sem ninguém sentir o cheiro da morte

Sem ninguém sentir que existe uma mistura que esconde identidades

Sem ninguém notar que entre o cinzento existe algo mais

Sem ninguém, como o cinzento, tenho eu medo de ficar.

domingo, 10 de outubro de 2010

Naufrágio

É com estas lágrimas que pinto esta tela

Escura e sem vida

Uma natureza morta

É com estas lágrimas que dilui-o o negro

Escuro e sem vida

Uma natureza morta

É com estas lágrimas que me escondo

Num escuro sem vida

Numa natureza morta

É nesta lágrimas que tento não naufragar

Num sito escuro e sem vida

Numa natureza morta.

No Fundo

Ruas escuras desarrumadas

Um leve cheiro a mofo

Uma carta rasgada no chão

Roupa suja em cima da cadeira velha

O sentimento de culpa que me quer matar

As tuas acidas lágrimas que corroem lentamente

Aquelas palavras que ainda magoam

O silêncio que me sufoca

O vazio que me preenche

A claustrofobia que me atormenta

A chuva que me deprime

O medo que sinto

O medo que vou ter

O futuro que tenho medo de conhecer

O passado que me rasga

O presente que me mata cegamente

As lágrimas que me lavam a cara

Eu no fundo sempre tive medo da solidão.