sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Fim

O coração reconhece
A mente explora
Os olhos escondem
Os sentidos adormecem
Acreditando numa flácida certeza
Afogada no efeito placebo.

É irreal
Anormal
Banal.

Existe uma enorme
Tensão nervosa
Que explora
Cada cavidade
Do estado esbatido
Que não quer reencarnar
Nem pensar, lutar ou apenas ficar
Para vencer toda aquela fraca expressão
Que nos assalta os poemas
Escritos na água, em vão.

Tem medo
É inseguro
É desconhecido.

Poderiam existir
Grandes mensagens plantadas
Em cada opção de partida?
Poderiam existir mágoas esquecidas
Durante o longo percurso
Que se suicidam na meta final?
Não.
É apenas o fim:
Seco
A meia luz
Decadente
Frágil e doente
Sem ventre, o fim.

O início

Aproxima-se o entusiasmo
E sonha-se que tudo cheire a novo.
Desejamos verificar
Que tudo foi renovado
Como se fosse assim
O caminho traçado
Pela austeridade
Da palavra humana.

Renasce a esperança
Engana-se a razão
Acredita-se na mudança
E recomeça a toda a aventura
Descendo espinhosas montanhas
De coração na mão
Com a vida
No limite de uma falésia
Porque o início
Só se vive uma vez.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Narciso Bravo

Quando te olhava nos olhos
Reparava na profundidade
Do teu miserável olhar.
A tua infância tinha sido
Amargamente sequestrada
Por um cego nevoeiro
Que ainda hoje
Regressa, disfarçado
Numa onda nostálgica de Inverno.

Entre recantos
De bravia natureza
Fundida aos poucos
Para uma sólida e desconfortável
Caixa cinzenta, era visível
O sentimento claustrofóbico
Que te burlava a mais intima dor
Que escondes no fundo
De um velho baú.

Caíram enumeras vezes
As preciosas pérolas
Dos teus olhos
Que corroeram toda a nitidez
Dos retratos gastos
Pelos estado atmosférico
Do passado, remendado como
Uma desprezada boneca de trapos.

Num brusco movimento
A vida consciente
Voltou a destruir
Todo aquele espaço branco
Cravado no teu interior
Como uma nota tóxica
Despejada no teu corpo
Que te obstruía todas
As possíveis saídas
Do labirinto onde dormias
Como uma pétala seca
De um Narciso.











sábado, 25 de dezembro de 2010

Noite Fria

O tempo passa
E hipnotiza-te
No meio da multidão.
Engoles o pó
Das pessoas que correm
Sem pisar o chão
Onde dormes todas as noites.

Poderiam ser espinhos
Ou talvez punhais
Mas não.
É apenas tristeza
Pura e dura, como o aço.

Quando percebes
Que te tens de levantar
És empurrado
Por correntes de ar
Vindas da falsa nostalgia
Que esvoaça
Atrás da tua casa.

No fim
Esperas que alguém
Te tire a venda dos olhos
E te beije cada cicatriz
Que o tempo te ofereceu.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Jardim de Inverno

Idolatrava,
Um dia conseguir
Apreciar todos os reflexos
Destas diversas luzes
Que giram à minha volta.

Existe algo
Que me interrompe
O admirar desta sala.

Existe algo dentro de mim
Que não identifico.
É invisível
Intocável
Intolerante
Cansa-me
Provoca-me tédio
Não me deixa viver
É uma leveza absurda
É um nó.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Violleta

Violleta
Ainda me lembro da primeira vez
De que me falaste da morte.
Exclamaste que a morte era um segredo
Sobre um segredo.
Quanto mais sobre ela sabemos
Mais mentimos sobre a sua essência.

Violleta
A minha infância morreu nesse dia.
Ainda te lembras quando foi?
Era Inverno e eu estava com frio, Violleta.
Tu, estavas pálida e com a saia do costume.

Todos sabemos
Que não passa de um vistoso ponto final
Que sucede a uma afiada vírgula mal engolida.
Faz ferida mas não dói.
Já doeu, Violleta.

Vale tudo
Neste grandioso formol
De luzes fundidas e reticentes.
É um corredor de espelhos partidos
Que reflectem todas as pequenas partes
Que nos constituem.

São noites tempestuosas
Onde chovem cavilhas ferrugentas
Que nos ferem o corpo
Num breve suspiro
Que nos marca para sempre.

Aos poucos
Ensinaste-me a dormir sem ter medo
Cantavas canções de embalar
Até que caísse num mundo irreal
Sem fendas nem tremores.

Eram longas as noites
Em que pairávamos sobre estacas ensanguentadas.
Sentíamos o verdadeiro cheiro do sangue.
Cheirava a pétalas de orquídea
A pó e a cofre aberto.
Costumávamos reparar no som
Assemelhava-se ao de um vinil riscado.

Agora, Violleta
Agora que estamos mortos
Frios e longínquos
Que sabemos sobre a morte, Violleta?



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Depois do Adeus, o Adeus

Através de um vidro embaciado
Apercebo-me que estás a morrer
Mais uma vez.
Nunca te cansaste da morte.
Tu próprio
Através de pequenas metáforas,
Ironias
E personificações
Ofereces o que de melhor sabes fazer.
Quando passas
Cobres tudo
Com suaves mantos sépia e escarlate.

Todas as noite
Ao repetido som da chuva
Que me ofereces
Questiono-me
Sobre a tua personalidade.
Sempre em vão
Como o vento soão
Que trazes contigo
Amarrado
Ao teu coração
De pedra.

Através deste vidro
Embaciado pelo teu bafo
Alimento-me
De uma visão desfocada e amarelada
Que me impede de presenciar
A tua gloriosa despedida.

Irei sentir saudade.
Irei permanecer ansioso pelo teu regresso.
Confiei-te o manto negro
Quero que o preserves
Como uma esmeralda numa planície árida.

Foi no teu leito
Que ele se deixou partir.
Foi na tua presença
Que me despedi.
Foi durante o teu reinado
Que deixei cair
As tais lágrimas
Filhas da dor.
Tu sentiste
E guardaste-as
Em segredo.

Só Tu
E Eu
Sabemos que
O manto que morre
Já não volta
Apenas se arrasta nas memórias
De uma estação, como tu, Outono.


domingo, 19 de dezembro de 2010

O Silêncio é um Vírus

Quando toda a destruição do Homem
E toda a corrupção do universo
Assaltam todos os pedaços
Que ainda restam de mim
Decido gastar-me à espera
Que um dia, o dia seja amante da noite
Assim como eu, amante do meu corpo.

Está tudo em chamas
Neste inferno de conclusões inacabadas
Onde me encontro
À espera de mim.

No leito desta degradação
Encontro-me nas sombras
Dos momentos em que me esqueço
Que não sei quem sou.
Não sei.

Se existisse
Poderia aninhar-me
Atrás daquilo que desconheço
E permanecer gélido.

Se existisse
Poderia olhar por entre as fendas
E absorver toda a ausência do ser
Que não nasceu
Nem nunca conheceu
O som das palavras que digo
E que vi morrer
Nos teus braços.

Engoles o mundo
O meu e o teu
Num faminto silêncio
Que me força a caminhar
Por áreas perigosamente desconhecidas.

Abomino a guerra
Que existe dentro de mim
Conflituosa como uma insónia
Que não deixa partir
Do mundo impingido
Ao mundo imaginário.

As horas tardias
Continuam a perseguir
Todos aqueles que vomitam
A voz muda
Todos aqueles a quem foi servido
Do melhor vazio da casa.

Nesta pequena ilha
Onde vivo como um mendigo
Existem momentos que voam como borboletas
Feridas nas suas frágeis asas
Assim como eu
Uma ferida, relembrada a cada passo
A cada inspirar, a cada expirar
Até que me falte o ar que respiro.






sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Sombra da Dúvida

Quando a frequência é baixa
E a noite é longa
As estrelas descem
E tu sonhas com:

Homens que atravessam guerras
Homens que vivem em tempestade
Homens deste mundo.

Homens que são plural
Omissões que são verdades
Medo que é alegria
Vergonha que é incerteza

Lutadores que comem o pó
Dos chefes da sociedade
Que são como laminas
Mal afiadas
Impõem obstáculos
Mas não cortam ruas.

Armas sem pólvora
Caras sem rosto
Olhares profundos
Visão turva.

Caminham
Quando o errado
Encara o estranho
Nas ruas
Onde ninguém
Tem memória.

Enumeras vezes
assemelha-se ao fim
Bastante vezes
Serve como fim.
Às vezes
Não é o início
Constantemente
É uma mentira.
Diariamente
É uma dúvida.




quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Maligno

Se esqueceres o meu nome
Se desistires de viver
Se fugires da tua sombra
Eu prometo ser a tua presa.

Eu corro para o deserto
Eu fujo para o abismo
Eu escondo-me nas minhas questões
Eu desapareço nas tuas respostas
Mas tu és o caçador.

Tenho coração de coelho
E tu de abutre
Pensamento de hiena
De alma vaga
De vestes de traição
Sem dó nem perdão.

Mata-me devagar
Esfola-me violentamente
E guarda-me
Se achares pertinente.

Há dias assim
Dias em que preciso
Se ser perseguido
Como um inocente animal
Que serve de alimento
Ao mais poderoso vilão
Que come por conveniência
Quando se sente em ascensão.



terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A aldeia do Nevoeiro

Suspirei
Enterrado num arrepio
E olhei
Para o frio que regressava da montanha.

A minha pele
Conseguia o branco
Ainda mais branco do que a cal
Envelhecida numa anónima parede.
Nenhum olhar.

Nas mãos,
A idade e as histórias recontadas
Ao som do crepitar do lume
No demorado anoitecer do coração.

Na ladeira,
O escorregadio piso que provocava
A queda dos mais fracos
Tropeçando nos problemas aprisionados
Durante décadas, no interior.

Olhares cansados,
De anos de luta e de luto.
Melodias funestas que bailavam
Em cada gesto
Em cada atitude
Em cada sorriso disfarçado
Em cada passo
Esperando o sopro do sono, pacientes.

Amedrontados,
Com a face do que mais estranho lhes habita
Nos velhos dias
Controlando todos os que caminham sob a água
Transpirando cem anos de vida.

Os rostos,
Gastos como as pedras da calçada
Vivem como telas afastadas da ribalta
Como velhos.

A cada fechar de olhos,
O medo de nunca mais os poder abrir
Temendo que os dias murchem
E nunca mais desabrochem cedo, todas as manhãs.

Todos os estranhos,
Abandonam agora a gôndola
Caminhando para longe
Sob o peso de tudo
O que colheram no dia do adeus.

Poderiam passar anos,
Mas a fome de viver
Nunca se iria render
Ao permanente estado de espírito
Quase febril, desta terra.

Os homens,
Queimam balas com os olhos
Cegam a luz do dia com as sombras
Embalam todas as mentiras
E partem para o amanhecer
Sem vontade de aprender
Ou até de viver
Estes seres
Que sem falar
Relatam lendas através do corpo
E sem escrever
Fazem ler nos seus rostos
Todos os dias chumbados pelo passado.
Nos seus olhares, o nenhum,
Confundido com a cegueira
Noutro tempo chamada de vida.

Pausa

Hoje não.
Hoje apenas vejo fumo
Atravessando todos os ramos das árvores
Como se fosse nevoeiro.
Desta vez, a paisagem
Não tinha adormecido
Unicamente se tinha esquecido
De viver.

Estava perante uma tarde
Sepultada num contemporâneo
Cemitério de Natureza.
Tudo era comparável ao sono
Tudo estava em apneia, em pausa, a dormir...

O vento tentava acordar
Todos os que pareciam ter partido.
O céu, tinha desistido
Estava sossegado e manchado de nuvens.

A vida deste quadro de cores frias
Estava guardada em segredo
Para aqueles que se recusaram a silenciar.

Era pasmado, o olhar desta natureza.
Eram berços de vida
Abstidos de movimento
Desde o dia em que não os visitei.

Talvez queiram responder
À cobardia que lhes apresentei
Na viçosa e serena manhã
Em que fugi sem avisar
Para a floresta cinzenta.

As casas estavam melindrosas
Não correspondiam ao meu olhar.
As telhas tinham enegrecido
De saudade ou de tristeza.
Era proibido proibir a entrada
E a saída da escanzelada esperança.

A esperança costumava-se misturar
No verde da imagem
Mesmo nas estações mais agrestes
Que lhe ameaçavam o fôlego.

Hoje, o verde é quase tóxico.
Faz doer no olhar
E magoa todos os abraços que não dei
Assim como a tristeza que nunca beberei.

Se o "não"
É o aperto que costumo sentir
Peço perdão
Porque vou partir
De novo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estilhaços

No longo caminho para casa
Reparei que todas aquelas folhas
Vítimas de uma estação
Tinham desaparecido.

O solo tinha sido varrido
Sem a minha permissão.
Aquelas cores, aqueles cadáveres
Aqueles mendigos, tudo.

Tudo o que o Outono me tinha oferecido
Tinha sido roubado por alguém
Que não deixou recado.

Agora é tempo de me reduzir
À pequenez que se assolapou
A uma atitude de misericórdia
Falhada ao fim do dia
Em que o meu tecto invertido
Foi vandalizado com subtis actos.

É áspero e sem sabor
Todo este paladar
Que se apoderou do meu interior
Como se fosse a dor
Que não é.

Talvez tenha sido o vento
Ou talvez a minha imaginação
Com certeza que foi um sonho
Ou de facto, tu.

Não te reconheço como um fantasma
Mas por favor pára de me assombrar.





quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Acre

Ácido
Ácido como nunca o foi
Amargo, como sempre.

Quando me foi dito para começar, pensei.
Não sabia se poderia entrar de olhar persistente
Numa casa escondida na sombra de uma colina
Com a faca na mão.

Estava farto de me mentir
Assim de medo ao peito
Abraçado aquilo que sempre acreditei
E que nunca existiu
Como os sonhos de domingo à tarde
Sombrios e inexistentes.

Foi de manhã bem cedo
Quando me senti cansado de iniciar monólogos
Que me derrotavam devagar
Sabendo que eu não conhecia a quem a minha
Palavra se dirigia. Pensei.

Visto do céu, o vazio parecia preencher-me
Com agressivos e espirituais banhos de culpa.
Aquele espaço oco, purificava a inocente casa
Apoiada numa sombra cheia de questões.

A casa guinchou o meu nome
Numa frequência inigualável
A qualquer outra conhecida.
Entrei: no chão dormiam roupas velhas,
Abandonadas ao nível de um ser humano
Onde a idade é uma incógnita
Esquecida num dos solitários passeios pela cidade.

Chamei por todos os que conhecia
E ninguém me respondeu.
As janelas da casa estavam abertas
E as portas eram cortinas de renda branca.

Ao fundo do corredor
Morava um enorme espelho.
Sentei-me ao seu lado e comecei a conversar.
Perguntei-lhe imensas vezes
Como se chamava a casa abandonada
Na sombra de uma colina
Mas só o vento me respondia
Fazendo baloiçar todas as velhas janelas.
Nunca me respondeu.
Nem nunca me disse quem era.
Quando parecia querer falar
Fingia estar ocupado em reflectir o meu vulto
Ignorando todo o meu discurso como
Todas as partes do meu corpo fazem
Quando início um monólogo, nas noites de insónias.

Acordei.









Sem Freio

Eu sei
Eu sei que consegues ouvir
Todos estes demónios
Que não te pertencem
Que não me pertencem.

O teu toque
Soa a teclas de piano
Sequestradas num sito desprezível
Ansiosas pelo embate do teu vulto.

Se conseguires cheirar
Percebes a venenosa fragância
Que nasce neste ar, no leito bipolar
Que existe à nossa volta.

Cresce um majestoso alerta
Ao brusco cair da noite
Que desperta toda a loucura
Que tinhas guardado na gaveta
No Outono passado.

É vadia, toda a vontade
Com que deste liberdade
A todos os medos
Refugiados em mim, como assassinos.

Os teus berros
São como um simples ruído
Focado, como cada lágrima
Que hoje e sempre
Te escorrerá pelo rosto
Recordando-te como
É o embate da água na pedra.

Na verdade
Sempre receei cair
E agora que finalmente esse receio
Se desfez ao embater na terra
Não me quero levantar.



Ébrio De Mim

Hoje não me vou matar
Não me apetece morrer
Sinto-me cansado da morte
Já morri demasiadas vezes.

Agora o meu ego é um eco
Que percorre todas as infinitas paredes
Do meu corpo, como se nunca fosse suficiente
Todas estas corridas quase vitais
Que me obrigo a executar.

No cimo disto tudo
Consigo ver nitidamente
Por entre as grandes grades
Que me perturbam o toque:

Onde estão todas as pessoas simples
Que viviam mesmo em cima do meu telhado?
Decidiram partir sem me avisar?
Fugiram sem me levar?
Sonharam sem me introduzir?
Mentiram sem me esmagar?

Resolveram morrer sem me matar.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Estigma do Tempo

As palavras que lhe fugiram
Por entre os lábios
Eram como fortes rajadas de vento
Que fazem perder o sentido
Do planeado rumo que nunca aconteceu.

Eu, como caravela
De vela frágil e gasta
À deriva na água
Inundado de lodo
Como um ser abandonado pela vida
No fundo do mar.

A enferrujada âncora
Ficou perdida numa
Das noites gélidas de tempestade
Próximo das ilhas desertas
do meu exausto pensamento.

Neste Porto
Onde os sonetos são o Sol
Que ergue os frutos da incerteza
Permaneço numa vaga e subnutrida solidão
Esperando dias sem conta
Que o mar se acalme.

É branda a forma como soltas estas fonias
Em forma de palavras, frases e textos
Que explodem na minha cara
Deixando-me cego desta rude paisagem.

Sobrevivo no meio deste temporal
Flutuando em cima de brancas mentiras
Esperando que um ser necrófago me devore
Pensando encontrar abrigo neste fantasiado caminho.

Cristalizado, a remar em viagem ao nada
Sentindo saudades de ver a minha sombra
Tentando não afundar, desvaneço em águas bravas
Conhecendo o habitual e tão aclamado fim.

Nesta praia de areia negra
Encontra-se agora o meu corpo
Magoado e congelado pelo desejo
De que um dia
As palavras deixem de ser o sopro
Que me afasta da margem.





domingo, 5 de dezembro de 2010

A Morada do Silêncio

O chão está dormente
E o cheiro continua doente
As pessoas caminham nestes pálidos campos
Com o mesmo ar de dor.
Existem assustadores olhares
Nos corredores revestidos a um ferido passado
Que vive em permanente reconstrução.
Ainda existe a enorme vontade
De libertar os selvagens sorrisos
Nesta grande casa de tantos e de tão poucos.

Em cada antiga sala de espera
Encontra-se um velho oximoro
Sentado, pensador com ar de vencido.

O medo e a dor
São hoje o pão e a água
A que muitos foram injustamente condenados
Aos preparativos de um sono profundo.

Conhecem o silêncio melhor que ninguém
Pois vivem com ele nos momentos mais lúcidos da mente.
A vida passou a ser um presente de natal
Ainda por embrulhar
Esquecido no anónimo armário.

As iluminações
Tremem como árvores cansadas e despidas
Num qualquer dia tenebroso de inverno.

Apalpa-se uma certa secura e apatia
Em cada rosto que adormece.
Olham-se como prisioneiros
De um crime que nunca cometeram
Nascidos de uma guerra fria
Entre a alma e o corpo.

Indiferente, é o ar que consomem
Em manifesto contra as longínquas noites
Que a consciência por vezes visita.

O passado passou a ser o presente
E o futuro passou a ser imaginado
Arduamente ardente, situado
Numa ocasional paisagem dantesca.

Vivem constantemente em chamas
Como pecadores do pecado que nunca existiu
E que nem aparenta querer nascer.

No corredor
Um vulto caminhando em marcha lenta
Com a vida entubada em formas imaginárias de realidade
Antes baptizadas pela doença que carregam
Como uma pesada e invulgar cruz
Chicoteado pelos olhares de pena de quem o vê.

Os gemidos silenciosos de extrema dor
Rebentam os tímpanos e os corações de veludo
De quem os mira de longe.

Comenta-se que a morte
Vive numa ordinária sala
No fundo de tudo
Junto aos trapos velhos.
Visita quem fraqueja
Levando os frágeis corpos
Para um frio apático e intocável.
É uma lenta despedida
Que termina no início
De uma barata viagem de barco
Ao mundo dos isolados solitários.

É uma odiável tirania conhecer o silêncio de um hospital.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Homem e a tempestade

Convicto de que conseguia voar
Ele voou.
Atravessou dilúvios emocionais
Cascatas de sentidos e arrefeceu.

Embateu na verde imensidão e desapareceu
Perdido como uma pedra no oceano
Tentada ser encontrada por quem não a viu cair.

Transitou de vida
Em metamorfose
Como se fosse uma borboleta
No ventre do mar
Sofrendo a transformação da vida
Reagindo como um cego
À escuridão.

Desequilibrado
Tentando planear os dias
Fechado numa crisálida
Em nuance de mundo
Nadando nas rochas
Que agora o revestem
Sentiu-se o desassossego de um conto ao sossegar
Arrematando-o à inexplicável viagem
Do Homem e a tempestade.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Morfemas

Não conheces toda esta heresia
Que te servem fria, à mesa.
Quanto mais a tentas perceber
Mais perdido te encontras
Julgando viver num mundo de morfemas.

São Pecadores, vencedores, amadores,
Devedores e Impostores
Que assaltam as estradas
Em busca de ti
Transformando o subliminar caos em realidade.

Quando acordas
Estás submerso de mentiras
Trancado em dramáticas memórias
Como uma sala de teatro
Sem expectadores
Vazia, com os seus habituais fantasmas.

O medo nasce na vontade de gritar
Como uma erva daninha no gelo
Tentando vencer
Sabendo que nunca irá existir
Reagindo à pobre luz
Que tenta emergir no dia
Como o recomeçar de uma história
Incerto e Inseguro.

Vendem-se sonetos a avulso
Formalidades pré-concebidas
Irregularidades conhecidas
Ditaduras escondidas
Animais enjaulados
E verdades perdidas.

Neste solo, existe tudo
Menos liberdade.
A liberdade foi roubada
Por aqueles que todos falam
Mas ninguém ousa dizer quem.

Vive-se o medo
Alimenta-se a indisposição
Comenta-se o apreço
Explora-se em comunhão
Em sentido inverso à rotação da terra.

Ladram os cães
Aos perfumes estranhos que passam
Nos becos sujos e adoentados que não têm saída.
Vírus que se disfarçam de linguagem
Que percorrem o mundo, levados em singelas cartas
Seladas com o escárnio de quem as vê.

As luzes choram como escravas
Imaginando o avesso da noite
Aveludada com brandos costumes
Como aquelas que existem
No catálogo utópico de um desconhecido.

São metáforas, tudo aquilo que vemos
São breves instantes que não fazem sentido
São páginas rasgadas num percurso singular
São retratos de uma sociedade.

Existo

Nem sempre somos pedra
Assim como nem sempre somos
O suficientemente inquebráveis
Como tentamos pintar, todos os dias.

Às vezes também somos o rio
Que arrasta tudo
Pelas margens
Onde existem espelhos invés de árvores
Que te mostram todos os detritos
Que vao embrulhados junto a ti, na corrente.

E se nos deitarmos aqui
E se não nos quisermos levantar
Ficaremos indiferentes para sempre
Como o lixo que nunca quisemos ser.
Reduzimo-nos a cinza
Pó.

Claustrofobia

Tic Tac Tic Tac

Em absoluto desespero
Ouvindo a chuva cair.
A cada pingo de chuva, uma facada.

Tic Tac Tic Tac

O tempo já não é suficiente
A parede continua a apertar
O vento continua a soprar
A cada pingo de chuva, uma ferida.

Tic Tac Tic Tac

Nada do que vejo
Nunca mais voltará a ser
A irrealidade com que respiro.
Não existe espaço
Não existe altura
O meu corpo irá desabar.

Tic Tac Tic Tac

Ranjo os dentes
Dentro desta ira
Que me rouba o diâmetro
A uma grande e fria distância.

Tic Tac Tic Tac

Aos meus olhos
Nada será mais valioso do que o ego
Que me transporta por entre estas paredes
Que teimam em apertar a cada simples pestanejar.

Tic Tac Tic Tac

Existe um sentimento insípido que me gasta a pele
Uma aflição que me asfixia
As lágrimas que não ousam sair
O tremor que transpiro
Tudo a emergir do meu eu
Como uma mentira descalça a caminhar num pântano.

Tic Tac Tic Tac

A cada patamar
Um obstáculo que me enfeitiça
Que me enlouquece.
Fico perdido
Sem saber como me libertar de mim
Tudo isto apenas
numa inocente volta dos ponteiros do relógio.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Violino Sem Cordas

Sem mais rodeios
Nesta casa o tempo passará a ser mudo
Como um violino sem cordas.

Nesta perversa luxúria
Me deitarei todos os dias de existência
Ao relento que existe em cada canto desta casa.

Na algibeira
Trago todas as coisas estranhas
Que tenho para dizer
Embora não saiba se as hei-de dizer agora
Ou depois de morrer.

No Inverno da minha presença
Senti-me quente e salvo
Em tom de melodia
Como se nunca chovesse no meu corpo.

Nunca soube qual a melhor altura
Para sair e entrar de cena
Porque na verdade
Eu sempre fui o palco desta casa.

É delicada a forma como me retiro
É penosa a atitude com que vivo
É cuidadoso, o eco desta vida
Que no fim se pronuncia
Na beleza do adeus do branco
Como um prego a perfurar madeira velha.

No lugar do coração
Talvez um venenoso gemido
Tímido e comprimido
No lugar errado
Generosamente esquecido na casa, por mim.

Em dias de tempestade
Afogo-me na minha voz
E caio, caio sem nunca mais me levantar
Como uma aurora burial no deserto.

A Cadeira

Ao início franzi os olhos e voltei a sentar-me.
De seguida, levantei-me um pouco desorientado
E voltei a sentar-me de novo
Na cadeira almofadada que estava no centro
Da vazia sala.

Eram horas de regressar à mortífera rotina.
Ergui a cabeça, olhei seriamente nos olhos do relógio
Que habitava o canto da sala
E suspirei.

Pensava no quanto eu adorava brincar
Com o mar nas noites de maré cheia.
Estava perplexo de nostalgia.
A cadeira quase se queixava do peso que
todo esse estranho sentimento lhe fazia
amargamente surportar.

Não hesitei.
Voltei a levantar-me da cadeira
E admirei-a duas vezes, caminhando
Em seu redor, sem medo.

Sabia que lá fora vivia-se um clima
Fortemente gelado, e nesta cadeira
Sentia-me desconfortavelmente
Confortável, situado a meio de uma
Sala que reconhecia daquelas noites
Em que não dormi, em pretexto
Dos meus repreensíveis pesadelos.

O relógio, ao fundo da sala
Observava-me com um ar furioso
Como estivesse a vida contada em horas.
Eu, continuava a dar voltas
Em redor da cadeira, admirando
Cada pormenor velho e gasto.

Estava Louco.
Eu e a cadeira, em perfeita união
Numa sala que transbordava um
Corpulento cheiro nocivo a nostalgia.

Fiquei ali horas;
Fiquei ali meses;
Fiquei ali anos;
Fiquei ali séculos;
Fiquei ali décadas;
Fiquei ali milénios.

Hoje, hoje ainda me lembro do
Cheiro inconfundível de uma
Admirável velha cadeira no centro de uma sala:
Cheira a nostalgia, cheira a claustrofobia,
Cheira a oco, cheira a vácuo e cheira a mofo.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Lobo Esfomeado

Embalado no entardecer
De uma imensidão luminosa
De gotículas de água, revejo
A glória triunfante que
Funde a vida humana
À paisagem.

Adormecido.
Adormecido com uma
Negra pedra vulcânica,
Mecanizado pela rarefacção
Do pensamento.

Vertiginosamente, no
Dorso da caminhada dos
Triângulos
Que por entre a multidão,
Admiram o cheiro da minha
Desgraçada imaginação, sobrevivo.

Numa curva, a enorme vontade
De voltar a nascer,
Acreditando que ainda consigo
Reconhecer, a pena com que escrevo.

Na noite, o desejo de voltar
A matar tudo aquilo
Que perturba os
Nossos filhos da madrugada.

Ao parar, o vazio ruidoso
Que adormece tudo o
Que se lhe opõe
Perseguindo o nada
Como um lobo esfomeado.

Conservado, no tempo
Hipnotizado na história
Pelo dinamismo
Do ser Humano, entre
Contos que nunca começam.

No fim, os vigorosos
Raios de luz
Aos pés de um percurso
Onde residem todas
Aquelas sílabas que
Amanhã roubarei.

domingo, 28 de novembro de 2010

Esquizofrénico

Ontem
Hoje
Amanhã
Depois de Amanhã

A qualquer hora
A qualquer momento
Num dia qualquer

De manhã
De tarde
Ao pôr-do-sol
À noite
De madrugada

Quando chove
Quando está sol
Quando neva
Quando cai geada
Quando se sente o orvalho

Num sábado
Num domingo
Num feriado

Ao pequeno-almoço
Ao almoço
Ao lanche
Ao jantar

No Quarto
Na rua
Num manicómio
Na morgue
No hospital

Em casa dele
Na sala dela
No quarto daqueles
Na cozinha dos outros

Atrás de uma pedra
Debaixo do pavimento
Dentro de uma garrafa
Em cima de uma carta
À frente da casa

Num baú
Numa mala
Numa gaveta
Na cama

Na terra
No mar
Na cidade
Numa aldeia
Numa árvore
No jardim

Esqueci-me do sítio certo
Onde me arrumei
Mas devo estar arrumado
Algures por aí.
Não sei.

sábado, 27 de novembro de 2010

Penumbra

Entre pequenos
Cruzamentos de tempo
A cidade tornou-se gelada.
Congelou.

Agora parece viver
Na inércia de dinamismo,
Alimentando-se do magnânimo vazio.

No ar,
Pairam valiosos pedaços
De melancolia em substituição de vida.

As emoções, não se fundem
Com a imensa insensibilidade
Que nasceu no tempo
E não se quer esconder.

Tal como as florestas,
As horas, os momentos,
Os fantasmas e a doença
Também as pessoas permanecem
Hirtas
Na penumbra luminosa
Que parece rastejar
Por entre as casas sem telhado
Daqueles que em dias como hoje,
Abortam os seus frágeis sentidos.



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Uma Utopia Qualquer

Hoje
No cruzamento das nojentas ruas
Por onde já é hábito passar,
Esqueci-me de mim.

Olhei-me no reflexo
De um charco de água turva
E não me vi.

As pessoas passavam
E olhavam-me com
O costume ar de nojo.

Eu
Leviano, quase como uma pena
Caída
De um pássaro qualquer,
Flutuava nos olhares indiscretos
Que violentamente me atravessavam.

Estava imune
De uma expressão vulnerável
E inesgotável.

Caí.

Ao cair,
Consegui sentir
Que ao longo destas ruas
Fui deixando ficar para trás
Partes de mim.

Ali
Lentamente, deixei-me ficar
Despido de mim
Acreditando que,
Um dia um espelho qualquer
Me queira mostrar
O que de mim se foi
E o que de mim se desvaneceu.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Amanhã

Amanhã, sem falta irei matar-me.
Amanhã, ao nascer da madrugada
Irei matar-me de mim
Olhar-me ao espelho
E gritar.
Gritar.
Gritar.

Vagueio cansado
Farto de faltar a compromissos e reuniões
Administradas pelo meu interior.

Entediado
Da estranha razão habituada
Continuo a esperar por amanhã.

Carrego esta simbiose de ideias
Por onde nunca esperei estar sentado,
Pacientemente à espera.

Neste antigo jardim
De meras quimeras
Espero por ti, amanhã.

Neste enfadonho momento
Rasgado por tudo o que está incerto
Este velho jardim, também morrerá
Em sintonia comigo
Amanhã, sem falta.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Insanidade

Numa grande chávena de café,
Reflexos de uma profunda e severa exaustão
Que vêm à tona da maré
Em noites de excessiva aflição.

A toalha, manchada de pensamentos
Entornados na noite anterior.

Nunca é suficiente
Todos os socalcos
Que a minha mente,
Jamais indiferente,
Concebe ao meu fiel tremor,
Sujo e dantesco
Como a minha agonia
em círculos de pavor.

Em Apneia

À noite, oiço paços no meu quarto.
A casa adormece enquanto a minha mente estremece.
Existe um fragor que não me deixa viajar.
Não sei se vá, ou se me deixe ficar.

À noite, murmuro nomes que desconheço...
À noite, corro em meu redor, sem rancor.
O robusto clarão diz-me sempre que padeço
De algo que me subordina
E que sinto do avesso.

Por mais que eu corra,
Mesmo que seja para bem longe daqui,
Já não sei se morra
Por tudo o que já sofri.

Continuo a ouvir, aquele murmúrio
Espinhoso e Petulante
Que me deixa insípido e ofegante.

A cada estrondo, uma facada
Que me deixa nu, no meio do nada.
Se ao menos a intrepidez
Com que me deito todas as noites
Me deixasse ausentar de vez,
Deste feroz mundo despovoado
Que cresceu na viuvez.

Nas ladeiras dos meus sonhos,
Existem clamores de uma multidão
Que se retirara em ligeiros paços
Preenchidos de exaustão.

O execrável tumulto que reside na minha mente
É vigorosamente insolente.
Apodera-se de mim
Fingindo-se clemente.

Ao deitar, sou profanado por todos estas incógnitas
Que me flagelam a sanidade
Que de tudo, é o que sinto mais saudade.




terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sociedade de Seda

Eles correm
Eles atropelam-se
O espírito renasce
Sufocam-se até, nas luzes.

Num ápice,
A alegria aceita reaparecer,
Em maré de hipocrisia
E continuam a correr.

Entre horas de algodão
E portões de solidão
Tudo continua a reaparecer.

Aos solavancos
Provam a triste saudade
Que morava no velho sótão
À uma eternidade.

Constroiem-se grandes monstros de cetim,
Enquanto outros esperam o seu digno fim
Em novelos de agulhas.

Uns choram.
Outros gritam.
Alguns mentem.
Todos o querem.

Pintam-se memórias
Recontam-se historias
Lamentam-se as escórias
Porque é Natal.

domingo, 21 de novembro de 2010

O Arte do Querer

Eu quero.

Eu quero ser o sol para nunca nascer.

Eu quero ser a chuva para inundar o obsoleto.

Eu quero ser a neve para gelar o mundo.

Eu quero ser uma tela para me pintar de preto.


Eu quero.

Eu quero ser a luz, para te ferir a visão.

Eu quero ser a doença que não tem cura.

Eu quero ser ferida que te dói noite e dia.


Eu quero.

Eu quero ser a arte que todos cospem.

Eu quero ser uma artéria que entope.

Eu quero ser o ar que respiras, para te asfixiar.


Eu quero.

Eu quero ser uma casa velha, abandonada por mim.

Eu quero ser o fogo para carbonizar as emoções.

Eu quero ser a música que ninguém ouve.


Eu quero.

Eu quero ser o surrealismo, o neoplasticismo e o dadaísmo

Para te matar de incompreensão.

Eu quero ser o sangue do teu vómito.


Eu quero.

Eu quero ser a estrada onde ninguém passa.

Eu quero ser a droga que todos consomem.

Eu quero ser o mar para te afogar.


Eu quero.

Eu quero ser as nuvens de inverno que te roubam os dias.

Eu quero ser o abstraccionismo lírico, para te perder em labirintos de expressão.

Eu quero ser o suprematismo pictórico, para te esmagar na pureza das formas geométricas.


Eu quero.

Eu quero ser o verde que já não o é.

Eu quero ser a morte e a arte de morrer.

Eu quero ser o ácido para te corroer.


Eu quero.

Eu quero ser o mendigo que todos desprezam.

Eu quero ser a fome e a sede que todos sentem.

Eu quero ser a dor que todos transportam no peito.


Eu quero.

Eu quero ser a religião para poder cuspir dogmas.

Eu quero ser a ciência para manipular o mundo.

Eu quero ser o sexo, a violação e o pudor.


Eu quero.

Eu quero ser uma andorinha, para partir e nunca mais regressar.

Eu quero ser o som mais agudo, para te ferir a audição.

Eu quero ser a violência que danifica a tua rua.


Eu quero.

Eu quero tudo e sempre mais.

A viagem

Através de um vidro,

A beleza de uma estação.

Perfurando a contraluz,

Uma nódoa de cor.


Ao longe, uma ponte frágil.

Ao perto, eu,

Congelado no leito do movimento,

Assistindo à arte da união

Entre a chuva e o vento.


Entre altos e baixos, o nevoeiro,

Solenemente anestesiando a paisagem.

O céu adormecido e o sol embriagado de luz,

Devoravam a melancolia da imagem.


Entre velhas pontes de fragilidade,

A vida em constante movimento.

No horizonte a luminosa linha,

Da vaidade e do crescimento.

No horizonte, a cidade.

Aqui, a liberdade.