domingo, 5 de dezembro de 2010

A Morada do Silêncio

O chão está dormente
E o cheiro continua doente
As pessoas caminham nestes pálidos campos
Com o mesmo ar de dor.
Existem assustadores olhares
Nos corredores revestidos a um ferido passado
Que vive em permanente reconstrução.
Ainda existe a enorme vontade
De libertar os selvagens sorrisos
Nesta grande casa de tantos e de tão poucos.

Em cada antiga sala de espera
Encontra-se um velho oximoro
Sentado, pensador com ar de vencido.

O medo e a dor
São hoje o pão e a água
A que muitos foram injustamente condenados
Aos preparativos de um sono profundo.

Conhecem o silêncio melhor que ninguém
Pois vivem com ele nos momentos mais lúcidos da mente.
A vida passou a ser um presente de natal
Ainda por embrulhar
Esquecido no anónimo armário.

As iluminações
Tremem como árvores cansadas e despidas
Num qualquer dia tenebroso de inverno.

Apalpa-se uma certa secura e apatia
Em cada rosto que adormece.
Olham-se como prisioneiros
De um crime que nunca cometeram
Nascidos de uma guerra fria
Entre a alma e o corpo.

Indiferente, é o ar que consomem
Em manifesto contra as longínquas noites
Que a consciência por vezes visita.

O passado passou a ser o presente
E o futuro passou a ser imaginado
Arduamente ardente, situado
Numa ocasional paisagem dantesca.

Vivem constantemente em chamas
Como pecadores do pecado que nunca existiu
E que nem aparenta querer nascer.

No corredor
Um vulto caminhando em marcha lenta
Com a vida entubada em formas imaginárias de realidade
Antes baptizadas pela doença que carregam
Como uma pesada e invulgar cruz
Chicoteado pelos olhares de pena de quem o vê.

Os gemidos silenciosos de extrema dor
Rebentam os tímpanos e os corações de veludo
De quem os mira de longe.

Comenta-se que a morte
Vive numa ordinária sala
No fundo de tudo
Junto aos trapos velhos.
Visita quem fraqueja
Levando os frágeis corpos
Para um frio apático e intocável.
É uma lenta despedida
Que termina no início
De uma barata viagem de barco
Ao mundo dos isolados solitários.

É uma odiável tirania conhecer o silêncio de um hospital.

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