terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A aldeia do Nevoeiro

Suspirei
Enterrado num arrepio
E olhei
Para o frio que regressava da montanha.

A minha pele
Conseguia o branco
Ainda mais branco do que a cal
Envelhecida numa anónima parede.
Nenhum olhar.

Nas mãos,
A idade e as histórias recontadas
Ao som do crepitar do lume
No demorado anoitecer do coração.

Na ladeira,
O escorregadio piso que provocava
A queda dos mais fracos
Tropeçando nos problemas aprisionados
Durante décadas, no interior.

Olhares cansados,
De anos de luta e de luto.
Melodias funestas que bailavam
Em cada gesto
Em cada atitude
Em cada sorriso disfarçado
Em cada passo
Esperando o sopro do sono, pacientes.

Amedrontados,
Com a face do que mais estranho lhes habita
Nos velhos dias
Controlando todos os que caminham sob a água
Transpirando cem anos de vida.

Os rostos,
Gastos como as pedras da calçada
Vivem como telas afastadas da ribalta
Como velhos.

A cada fechar de olhos,
O medo de nunca mais os poder abrir
Temendo que os dias murchem
E nunca mais desabrochem cedo, todas as manhãs.

Todos os estranhos,
Abandonam agora a gôndola
Caminhando para longe
Sob o peso de tudo
O que colheram no dia do adeus.

Poderiam passar anos,
Mas a fome de viver
Nunca se iria render
Ao permanente estado de espírito
Quase febril, desta terra.

Os homens,
Queimam balas com os olhos
Cegam a luz do dia com as sombras
Embalam todas as mentiras
E partem para o amanhecer
Sem vontade de aprender
Ou até de viver
Estes seres
Que sem falar
Relatam lendas através do corpo
E sem escrever
Fazem ler nos seus rostos
Todos os dias chumbados pelo passado.
Nos seus olhares, o nenhum,
Confundido com a cegueira
Noutro tempo chamada de vida.

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