quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Cadeira

Ao início franzi os olhos e voltei a sentar-me.
De seguida, levantei-me um pouco desorientado
E voltei a sentar-me de novo
Na cadeira almofadada que estava no centro
Da vazia sala.

Eram horas de regressar à mortífera rotina.
Ergui a cabeça, olhei seriamente nos olhos do relógio
Que habitava o canto da sala
E suspirei.

Pensava no quanto eu adorava brincar
Com o mar nas noites de maré cheia.
Estava perplexo de nostalgia.
A cadeira quase se queixava do peso que
todo esse estranho sentimento lhe fazia
amargamente surportar.

Não hesitei.
Voltei a levantar-me da cadeira
E admirei-a duas vezes, caminhando
Em seu redor, sem medo.

Sabia que lá fora vivia-se um clima
Fortemente gelado, e nesta cadeira
Sentia-me desconfortavelmente
Confortável, situado a meio de uma
Sala que reconhecia daquelas noites
Em que não dormi, em pretexto
Dos meus repreensíveis pesadelos.

O relógio, ao fundo da sala
Observava-me com um ar furioso
Como estivesse a vida contada em horas.
Eu, continuava a dar voltas
Em redor da cadeira, admirando
Cada pormenor velho e gasto.

Estava Louco.
Eu e a cadeira, em perfeita união
Numa sala que transbordava um
Corpulento cheiro nocivo a nostalgia.

Fiquei ali horas;
Fiquei ali meses;
Fiquei ali anos;
Fiquei ali séculos;
Fiquei ali décadas;
Fiquei ali milénios.

Hoje, hoje ainda me lembro do
Cheiro inconfundível de uma
Admirável velha cadeira no centro de uma sala:
Cheira a nostalgia, cheira a claustrofobia,
Cheira a oco, cheira a vácuo e cheira a mofo.



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