domingo, 21 de novembro de 2010

O Arte do Querer

Eu quero.

Eu quero ser o sol para nunca nascer.

Eu quero ser a chuva para inundar o obsoleto.

Eu quero ser a neve para gelar o mundo.

Eu quero ser uma tela para me pintar de preto.


Eu quero.

Eu quero ser a luz, para te ferir a visão.

Eu quero ser a doença que não tem cura.

Eu quero ser ferida que te dói noite e dia.


Eu quero.

Eu quero ser a arte que todos cospem.

Eu quero ser uma artéria que entope.

Eu quero ser o ar que respiras, para te asfixiar.


Eu quero.

Eu quero ser uma casa velha, abandonada por mim.

Eu quero ser o fogo para carbonizar as emoções.

Eu quero ser a música que ninguém ouve.


Eu quero.

Eu quero ser o surrealismo, o neoplasticismo e o dadaísmo

Para te matar de incompreensão.

Eu quero ser o sangue do teu vómito.


Eu quero.

Eu quero ser a estrada onde ninguém passa.

Eu quero ser a droga que todos consomem.

Eu quero ser o mar para te afogar.


Eu quero.

Eu quero ser as nuvens de inverno que te roubam os dias.

Eu quero ser o abstraccionismo lírico, para te perder em labirintos de expressão.

Eu quero ser o suprematismo pictórico, para te esmagar na pureza das formas geométricas.


Eu quero.

Eu quero ser o verde que já não o é.

Eu quero ser a morte e a arte de morrer.

Eu quero ser o ácido para te corroer.


Eu quero.

Eu quero ser o mendigo que todos desprezam.

Eu quero ser a fome e a sede que todos sentem.

Eu quero ser a dor que todos transportam no peito.


Eu quero.

Eu quero ser a religião para poder cuspir dogmas.

Eu quero ser a ciência para manipular o mundo.

Eu quero ser o sexo, a violação e o pudor.


Eu quero.

Eu quero ser uma andorinha, para partir e nunca mais regressar.

Eu quero ser o som mais agudo, para te ferir a audição.

Eu quero ser a violência que danifica a tua rua.


Eu quero.

Eu quero tudo e sempre mais.

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