Eu quero.
Eu quero ser o sol para nunca nascer.
Eu quero ser a chuva para inundar o obsoleto.
Eu quero ser a neve para gelar o mundo.
Eu quero ser uma tela para me pintar de preto.
Eu quero.
Eu quero ser a luz, para te ferir a visão.
Eu quero ser a doença que não tem cura.
Eu quero ser ferida que te dói noite e dia.
Eu quero.
Eu quero ser a arte que todos cospem.
Eu quero ser uma artéria que entope.
Eu quero ser o ar que respiras, para te asfixiar.
Eu quero.
Eu quero ser uma casa velha, abandonada por mim.
Eu quero ser o fogo para carbonizar as emoções.
Eu quero ser a música que ninguém ouve.
Eu quero.
Eu quero ser o surrealismo, o neoplasticismo e o dadaísmo
Para te matar de incompreensão.
Eu quero ser o sangue do teu vómito.
Eu quero.
Eu quero ser a estrada onde ninguém passa.
Eu quero ser a droga que todos consomem.
Eu quero ser o mar para te afogar.
Eu quero.
Eu quero ser as nuvens de inverno que te roubam os dias.
Eu quero ser o abstraccionismo lírico, para te perder em labirintos de expressão.
Eu quero ser o suprematismo pictórico, para te esmagar na pureza das formas geométricas.
Eu quero.
Eu quero ser o verde que já não o é.
Eu quero ser a morte e a arte de morrer.
Eu quero ser o ácido para te corroer.
Eu quero.
Eu quero ser o mendigo que todos desprezam.
Eu quero ser a fome e a sede que todos sentem.
Eu quero ser a dor que todos transportam no peito.
Eu quero.
Eu quero ser a religião para poder cuspir dogmas.
Eu quero ser a ciência para manipular o mundo.
Eu quero ser o sexo, a violação e o pudor.
Eu quero.
Eu quero ser uma andorinha, para partir e nunca mais regressar.
Eu quero ser o som mais agudo, para te ferir a audição.
Eu quero ser a violência que danifica a tua rua.
Eu quero.
Eu quero tudo e sempre mais.
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